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Projeto de estudantes de Imperatriz transforma resíduos do açaí em produtos sustentáveis

Trabalhos científicos utilizam 100% do fruto para a fabricação de produtos como vasos de plantas, papel, borrachas, sabonetes e bioplástico

Publicado em: 06/11/2026 por Ana Maria Nascimento

Secretaria de Educação

Projeto de estudantes de Imperatriz transforma resíduos do açaí em produtos sustentáveis

Estudantes da rede municipal dão exemplo de sustentabilidade ao transformar caroços e fibras de açaí em inovações tecnológicas premiadas nacionalmente (Foto: Santiago Silva)

Um projeto inovador que reaproveita 100% dos resíduos do açaí é resultado do incentivo à pesquisa científica nas escolas, promovido pela Prefeitura de Imperatriz, por meio da Secretaria Municipal de Educação (Semed). O que antes era um problema devido ao descarte de toneladas de caroços de açaí na comunidade do povoado Km 1.700 tornou-se matéria-prima para o desenvolvimento de produtos tecnológicos nas mãos de jovens cientistas da Escola Municipal Afonso Pena, localizada na zona rural de Imperatriz.

A solução sustentável ganhou forma com o projeto “Biochar de açaí mais: inovação verde transformando caroços de açaí em ferramentas para o futuro”. Ao unir o conhecimento adquirido em sala de aula à vivência comunitária, o trabalho conquistou premiações em feiras de ciências estaduais e nacionais, levando a educação municipal de Imperatriz a espaços de destaque na inovação científica.

O secretário da Semed, Magno Ribeiro, ressalta a importância do incentivo à ciência no campo e destaca o impacto transformador do projeto. “A gente fica cheio de orgulho em ver nossos estudantes vivenciando a ciência. A pesquisa científica não é algo distante ou restrito a laboratórios; ela nasce do cotidiano. Ver esses meninos e meninas encontrando soluções reais para o lixo que antes acumulava nas portas de suas casas é a maior prova de que, quando a gente acredita na educação e possibilita o acesso a ferramentas adequadas, eles não mudam só a nota no boletim, mudam o destino de uma comunidade inteira”.

Aproveitamento total dos resíduos

Tudo começou com a observação do acúmulo de resíduos na comunidade, especialmente durante a tradicional Feira do Açaí, realizada anualmente entre outubro e novembro. As embalagens plásticas utilizadas pelos feirantes e consumidores acabavam se espalhando pelo local. Como explica a gestora da escola, Maria Edicles, o foco inicial era encontrar uma alternativa para substituir esse material. “A princípio, a gente buscou uma solução para a Feira do Açaí, um evento grandioso na nossa comunidade quando a safra está no auge. As embalagens usadas pelos clientes se espalhavam por todo o local. A solução primária era que pudéssemos fazer embalagens ecológicas”.

A gestora explica que a problemática do descarte irregular das embalagens plásticas deu origem a uma pesquisa sobre a produção de bioplástico a partir do caroço do açaí. O estudo apresentou alternativas sustentáveis ao plástico convencional, com a criação de embalagens e copos ecológicos.

No entanto, o projeto ganhou novos rumos após uma visita dos alunos a uma fábrica de produção de café de açaí. “O que chamou a atenção na nossa visita foi o biochar, que é o substrato, mas não descartamos o bioplástico, pois continuamos fabricando as embalagens. Quando os meninos tiveram um olhar mais apurado para a questão da borracha, eles viram a fibra sendo jogada no chão da fábrica após a produção do café. A fibra não é usada no café, mas os alunos a aproveitaram e iniciaram novas pesquisas”, pontua a gestora.

Com o incentivo da escola, os estudantes iniciaram pesquisas laboratoriais e de campo. O trabalho resultou no desenvolvimento de protótipos de borrachas escolares e industriais, com possibilidades de aplicação em materiais escolares, calçados, tapetes e até no setor automobilístico. A pesquisa também possibilitou a produção de papel reciclável e de vasos-adubo ecológicos para o cultivo de mudas.

A estudante Gabriela Nascimento, do 9º ano, que integra o projeto, descreve a experiência. “Somos filhos de extratores, então já temos uma rotina e estamos acostumados com o açaí. Por meio da problemática do acúmulo dos caroços, do impulsionamento da escola e das famílias, chegamos aos produtos que temos hoje. Temos a borracha feita a partir da fibra e também o biochar, que pelo nome parece chá, mas é um adubo orgânico que serve como um condicionador do solo”.

Gabriela detalha que a fibra submetida ao processo de torra é mais indicada para a produção de borrachas escolares, enquanto a fibra in natura pode ser utilizada na fabricação de calçados, brinquedos e caixas. Ela ressalta que o desenvolvimento da borracha foi um dos maiores desafios, já que o foco inicial da pesquisa era o biochar.

O estudante Caio Silva explicou as etapas dos estudos realizados no laboratório da Unisulma, que envolveram a secagem do caroço e análises de campo e laboratoriais sobre o biochar. Os testes avaliaram aspectos como pH, porosidade, resistência e reação do solo, contribuindo para a certificação dos produtos.

Premiações

Entre as principais conquistas da equipe estão o 1º lugar na Mostra de Ciência e Tecnologia do Instituto Açaí (MCTIA), em Belém (PA); o 1º lugar na Feira Maranhense de Letramento Científico (Femalec); e o destaque na Expo Nacional Milset Brasil 2025, em Fortaleza (CE), onde representaram o Maranhão, como relata Caio. “Conquistamos o primeiro lugar e o nosso projeto físico foi selecionado para fazer a amostra lá em Brasília, representando o Maranhão”.

Os estudantes também participaram da Feira Científica da Uemasul e da Escola Santa Teresinha. Além disso, o projeto foi selecionado por dois anos consecutivos entre os melhores do Maranhão no Desafio Liga Jovem, do Sebrae, e conquistou credenciamentos para importantes mostras científicas em estados como Pernambuco e Rio Grande do Sul. A pesquisa também alcançou projeção internacional ao ser selecionada para a Rota Científica, no Chile.

Outras turmas da rede municipal também desenvolvem pesquisas. As atividades são organizadas conforme as etapas de ensino: na Educação Infantil, são realizadas feirinhas, enquanto do 6º ao 9º ano os estudantes desenvolvem projetos científicos. Na Educação de Jovens e Adultos (EJA), as pesquisas são voltadas ao carvão produzido a partir do açaí, chamado de cavocaí.

Um dos trabalhos desenvolvidos é o projeto “Aproveitamento de caroços de açaí na saponificação: alternativa sustentável corroborando economia verde e equidade das comunidades extrativistas”. A pesquisa levou os estudantes à criação de protótipos de sabão e sabonete líquido. Já o projeto Ecotalos conquistou o 2º lugar na MCTIA e está inscrito na próxima edição da Femalec. O grupo também garantiu credenciamentos para eventos científicos em Pernambuco, Recife, Porto Alegre e Juazeiro do Norte (CE). As pesquisas são voltadas à criação de incensos, repelentes, sabonetes em pasta e em barra, além de pasta para limpeza de alumínio.

Para a orientadora Ocirene Cardoso, o verdadeiro valor da pesquisa está na sua aplicação prática. “Tudo começou de um problema, a gente pesquisou uma solução e encontrou. O que você faz de bom, você tem que mostrar. Isso dá um empoderamento à comunidade, permitindo que as pessoas possam trabalhar e produzir”.

A estudante Gabriela Nascimento também destaca a oportunidade de unir o interesse pela ciência ao desenvolvimento local. “É uma grande oportunidade de aprimorar meus conhecimentos e contribuir para a nossa comunidade. Ver nosso projeto crescendo e sendo reconhecido é a realização de um sonho”, afirma.

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